Notas gerais
"O carretel é feito das madeiras pau-d’arco e cedro e os instrumentos usados são a cerradeira, o facão e o furador. Esta peça foi feita entre 1978 e 1980 e faz parte de um tear maior, chamado “tear de macaco”, porque o movimento de quem trabalha se faz pisando, lembrando o movimento de um macaco. No tear há dois carretéis, utilizados para girar com o pisador, abrir o liço, trocar e entrançar o fio para fazer o tecido. Esta peça está separada do resto do tear porque o tear foi desativado. Isso aaconteceu em 2008, quando a Dona Raimunda parou de tecer, por causa de uma doença que ela teve. No entanto, outros dois motivos levaram à diminuição da atividade na comunidade. Primeiro, a demanda foi se acabando, pois as pessoas começaram a dormir em camas, consideradas mais resistentes; sobretudo as pessoas pararam de encomendar redes, preferindo aquelas industriais, mais baratas; sem um retorno econômico, a atividade de fabricação de redes com o tear de macaco, lentamente, foi diminuindo e hoje em dia só poucas pessoas que ainda o utilizam. Outro motivo diz respeito a matéria-prima utilizada para a construção do tear e sua manutenção. A duração de um tear é de 10 até 15 anos, pois a madeira vai se estragando por causa da ação dos cupins. Além disso, os que sabiam construir e cuidar desse objeto estão falecendo, fazendo com que estes conhecimentos se percam. A Dona Raimunda aprendeu a tecer com 25 anos, mas já desde criança olhava as mulheres fazendo. Depois foi a Antônia Ferreira, que ensinou para ela. O carretel leva a memória de Dona Maria Raimunda a muita lembranças: “Essa aqui para mim significa quando eu comecei a trabalhar, e comecei a fazer o meu serviço particular […], eu estou fazendo sozinha. […] É o meu passado que está aqui, quando eu comecei a trabalhar. Esta aqui faz parte da minha vida, né? Faz parte da minha história… também a gente se juntava, trabalhava, […] se ajudava um com o outro, então a gente conversava e combinava. Então, era uma amizade que a gente tinha um com o outro […], porque era um trabalho que a gente não podia fazer sozinho.” A decisão de doar esta peça para o Museu do Rio é devido sobretudo a questões práticas, pois é menor do que outras e também mais conservada. Porém, Dona Raimunda não vai sentir saudade dela, porque como são duas, a outra vai ficar com ela"