“Com uma concha tendo um orifício aberto no meio (gume ativo interno), ou a borda afilada (gume ativo periférico), raspam-se as raízes de mandioca, cortam-se os frutos do pequi ou a polpa da semente. A propósito desse implemento, ainda hoje comum no alto Xingu, informa K. v.d. Steinen: “ Conchas chatas, colhidas no rio, serviam em grande escala para cortar (menos no intuito de separar do que em vista de incisões longitudinais), raspar, aplainar, alisar. (. . .) Anodonta era a concha usada para raspar a raiz da mandioca (. . .). Essa concha servia também de plaina para alisar o cabo do machado de pedra, ou o remo; o trabalho, porém, não era feito com o bordo, mas com o orifício aberto no meio da concha. Os índios tiravam com os dentes a casca externa, fazendo, em seguida, o orifício de plaina com a noz pontuda do acuri. Com uma outra espécie de Anodonta, itá-i, ‘concha pequena’, alisava-se igualmente a madeira. (. . .) Uma Hyria chata, itá mukú, era interessante por ter um prolongamento pontudo com que se abriam, por exemplo, os frutos pequi. Corresponde ao nosso canivete. . . Nas viagens, a concha carregava-se ao pescoço; abriam-se com ela os peixes e a caça; com ela se escavava na vara para produzir o fogo” . (. . .) (Steinen 1940:254)”. Fonte: RIBEIRO, Berta Gleizer. Dicionário do artesanato indígena. Editora da Universidade de São Paulo, 1988.