Notas gerais
"A Tarrafa foi feita em 2014, demorando quase seis meses para chegar ao término, porque o tempo que Raimundo podia trabalhar nela não era muito, pois outras atividades requeriam a atenção dele. Não foi a primeira, pelo contrário, é apenas uma dentre as muitas que Raimundo já fez na sua vida. Começou a fazer mais ou menos com vinte anos, em torno de 1980, graças aos ensinamentos do seu pai, Seu Manoel Sinézio do Nascimento. Naquele tempo, as tarrafas ainda eram feitas de fio de algodão, substituído depois com o fiar de tucum e, enfim, com o nylon que utiliza-se até hoje. Costurados, a rede tem pedaços de chumbo para que fique bem apertada ao leito quando jogada no rio. “Quanto mais pesa, mais ela baixa ligeiro”. Depois da coleta dos peixes se vai juntando por baixo, devagarinho, para controlar se tem peixe e não deixar eles escaparem. Os materiais com que a tarrafa é feita se encontram com facilidade no mercado do município de Pedro II. Esta substituição foi causada pelas mudanças sociais, econômicas, tecnológicas e permitiu confeccionado uma tarrafa melhor, de maneira mais rápida e tornando-a mais resistente. As que eram feitas de algodão e palha só duravam até no máximo dois anos. Quando a tarrafa quebra, se remenda: “Até que dá para ir, a gente vai costurando…”. Perto de Nazaré a pesca é feita no rio, principalmente no período que varia entre o final de dezembro até fevereiro, sendo a época do ano em que o rio está mais cheio e tem mais peixe. Para o seu Raimundo a tarrafa é uma fonte de renda, para provisionar o sustento de sua família, que só se tem nas coisas da roça. “Aqui tem diversos tipos de peixe, Piau, Piaba, Traíra, Curimatan…”. E a pesca é uma atividade que não parou de ser praticada. Pelo contrário, o número de pessoas que pescam aumentou, e quase cada casa tem uma tarrafa. Apesar do tempo e do empenho na fabricação, decidiu doar a rede para o Museu para que fique a lembrança deste saber e das atividades a ele relacionadas. “Quando eu era menino, os passos no rio onde papai pescava […], naquela época tinha muito peixe… agora tem pouco peixe. Às vezes eu lembro do tanto de peixe que o papai pegava, e hoje ninguém pega mais porque não tem […]”. Com o aumento da população e da atividade de pesca o peixe vai se acabando. A diminuição de peixe é devida à carência de água no rio, que fica perto de Nazaré: esse é alimentado pelo “encheamento” do rio de Piripiri, que nos últimos anos está ficando muito baixo, fazendo que também o rio perto da comunidade também permaneça seco"